Meditação Transcedental

Foto: Yogi Madhav

Esse é um tema crucial no processo de cura e que muitas vezes não é considerado importante, por parte do paciente ou até mesmo de alguns praticantes de ayurveda, devido a uma imagem distorcida que o ocidente tem do ayurveda como sendo um sistema de cura físico ou mesmo por falta de conhecimento apropriado sobre essa ciência milenar.

Quando analisamos o conceito de saúde como descrito nos textos antigos, observamos que tal estado de equilíbrio abrange a totalidade da vida de um indivíduo, como vemos a seguir: “Saúde é um estado perfeito entre: agni, doshas, dhatus, malas, manas, endryas e atma” (Susruta Samhita). Em outras palavras: Saúde é um estado de perfeito equilíbrio entre as funções fisiológicas, onde: a mente, os sentidos e a alma se encontram em estado de equilíbrio e harmonia. Bem estar físico, social, mental e espiritual. Sendo assim, temos uma realidade que se distancia dos parâmetros ocidentais de saúde.

Nossa ciência moderna foi toda calcada sob a existência da matéria (do corpo físico) como sendo a realidade última da vida, ignorando a existência da consciência. Por outro lado, todo o conhecimento védico reconhece a consciência como sendo o fator fundamental e a base de toda a expressão e desenvolvimento da vida material. A questão aqui abordada é, como obter saúde?

Nesse sentido é de extrema importância compreender as abordagens terapêuticas do ayurveda que são divididas em dois grupos: as terapias dos doshas e as terapias da mente. No campo dos doshas é falamos de toda a relação entre a fisiologia humana, todos os sistemas de circulação, excreção, respiração, etc. No campo da mente falamos da sua relação com os sentidos, órgãos da ação e consciência, e toda a relação que ela exerce sobre o indivíduo e seu estado de saúde.

É justamente nesse ponto que vejo uma dificuldade por conta de certos conceitos, crenças e outras formas sutis de auto sabotagem que impedem o indivíduo de se curar. Tanto no ayurveda como em toda a extensão da literatura védica, descrita por grandes Rishis (sábios) que transcenderam a compreensão da matéria, existem inúmeras citações que deixam claro o objetivo final dos vedas – a libertação do sofrimento e a iluminação espiritual (moksha). Textos como o Yoga Sutra, Bhagavad Gita, e mesmo Charaka Samhita e outros tratados do ayurveda, deixam claro a necessidade da expressão da consciência e o entendimento de nosso verdadeiro propósito nessa vida (Dharma) que se dá através de práticas espirituais como a meditação transcendental, que nos conecta com a consciência pura (nosso verdadeiro estado de auto referência, ou seja, quem nós realmente somos, independente de qualquer posse ou status, existência pura). Tal experiência é intrínseca a existência humana, pois todos somos feitos da mesma manifestação da consciência.

Foto: Nicolas Hans

O vedas chamam essa realidade de Sat-Chit-Ananda – Consciência eterna de bem aventurança. Tais tratados citados acima deixam claro em sentenças como Patanjali menciona no Yoga-Sutra: “yoga é o cessar dos impulsos da mente”, ou no Gita onde Krishna menciona: “esteja sem os três gunas” (que são qualidades sutis da matéria em diferentes manifestações: satva, rajas e tamas). Podemos ver também nos tratados de ayurveda em especial os capítulos sobre rotina diária (Dinachara) que mencionam a pratica da meditação, mantras e outras técnicas junto ao nascer do sol como a primeira atividade do dia, então sabemos da importância e necessidade de tais práticas dentro do contexto do ayurveda também.

O Mestre Maharishi Mahesh Yogi e outros mestres védicos nunca dissociaram ambas as ciências (yoga/meditação e ayurveda) de seus ensinamentos, isso por que nunca foram coisas separadas. Mente, corpo e consciência são fatores fundamentais e expressões da vida nesse planeta e nesse corpo que habitamos, portanto tratar somente de um dos aspectos ignorando a existência de outros é como tentar controlar a mente através de um pensamento.

Se vivemos somente na perspectiva da realização material, na tentativa de satisfação dos desejos, somos dragados por uma constante necessidade de ter algo, sempre insatisfeitos acreditamos que a vida e a felicidade estão fora de nós, então sempre projetamos a realização, a felicidade em nossas conquistas materiais. Por outro lado, se ignoramos a matéria e não damos devida atenção e cuidado ao corpo, então sofremos de problemas de saúde e dificilmente nossa atenção estará além de tal sofrimento, pois a doença nos chamará a atenção. É justamente esse o ponto de intercessão do ayurveda e do yoga, cuidar da matéria e da consciência para que nossa expressão mais elevada possa se manifestar, e assim estaremos mais conectados com nossa essência e nossos verdadeiros desejos.

Como falei mais acima os gunas são qualidades sutis da matéria a qual estamos sujeitos a influências de diversas formas: onde satva representa aquilo que leva a um estado de equilíbrio/ saúde; Rajas, movimento (uma busca constante por realizar algo), impulsionado por uma ambição e tamas representa um estado de desiquilíbrio total levando sempre a um estado de ignorância, doença etc. Na minha prática, tanto quanto instrutor de Meditação Transcedental ou praticante de ayurveda percebo que ambos os caminhos se cruzam e tanto um quanto o outro podem levar a um despertar e uma transformação sustentável e duradoura. No ayurveda, geralmente as pessoas vem em busca da solução de um problema de saúde físico, na maioria dos casos. No campo da meditação geralmente as pessoas se queixam da necessidade de aprender a lidar com a mente e seus distúrbios como ansiedade, insônia, depressão, pânico e vários outros. Essas duas vias são fundamentais e complementares.

Vejo que quando melhoramos a qualidade de vida e saúde física de uma pessoa, automaticamente ela se torna propensa a buscar por atividades que a levem a manter a saúde e aí a buscar pela prática da meditação para expandir sua percepção interna e adquirir autoconhecimento. E por outro lado, quando o indivíduo começa a meditar, sua atitude mental perante a vida e suas escolhas também muda, buscando assim atividades que a levem a ter mais saúde, até que percebem que o Ayurveda pode lhe ajudar bastante nesse sentido. Então, na visão do ayurveda, podemos auxiliar através de diversas perspectivas terapêuticas como dieta, exercícios, fitoterapia, procedimentos de desintoxicação profunda e procedimentos externos, e tratamos assim cada indivíduo e cada distúrbio com um conjunto de terapias associadas para cada momento e necessidade específica de cada um.

Nas práticas espirituais e técnicas da Meditação Transcedental, avivamos a experiência do Ser, ou seja, vamos além da influência da mente e dos sentidos para que possamos nos enxergar com clareza o que há por detrás da matéria e assim ver o mundo da forma mais simples como ele é, ou como nós realmente somos. É necessário, no entanto, que nós instrutores de meditação, terapeutas ayurveda e praticantes do Dharma sejamos exemplo daquilo que falamos, caso contrário nos tornamos papagaios repetindo sentenças que não experienciamos.

Uma mudança real e duradoura requer uma prática constante e regular, em nenhuma das duas ciências (ayurveda e yoga) existem pílulas milagrosas se o praticante não aplica o conhecimento em sua vida! Que possamos cada vez mais buscar pela simplicidade de acordar, meditar, caminhar, fazer e comer nossa própria comida, nos relacionar com o outro de forma sempre acolhedora assim como nós fomos guiados até aqui.

Mario JP Neto – É instrutor e praticante de meditação transcendental, terapeuta e professor de Ayurveda. Atende em Brasília – DF

contato: mariojpneto@yahoo.com.br

Deixe uma resposta