Charak e a expressão da consciência

Foto: Ferdinand Stohr

De acordo com Chacrapani (o principal comentarista do livro “Charak Samhita”), Charak foi o próprio Patanjali (o preceptor do conhecimento de Yoga) e deixa isso claro no seu comentário do Charak Samhita na seguinte sentença:

“Saudações a Patanjali, a encarnação do Deus das serpentes, o eliminador dos defeitos da mente, da fala e do corpo através de seu Yoga Dharshan, Mahabhasya e REDAÇÃO DO CHARAK, etc…”

No capítulo sobre a descrição do corpo (Sarira Sthan), Charak menciona a mente como sendo um órgão e o principal agente causador de doença ou saúde, como veremos a seguir.

“A causa da saúde é somente uma, o uso equilibrado dos sentidos.”

“A causa da doença se dá devido ao uso pervertido, excessivo ou reduzido dos sentidos.”

Então, o mau uso dos sentidos, orientado por uma mente com influências negativas, vai resultar em doença. Isto é, se a mente é impulsionada por Rajas e Tamas (que são considerados os Doshas da mente), que respectivamente representam movimento e inércia, então diversos distúrbios psicológicos e físicos serão notados.

“De fato, não pode haver felicidade ou miséria sem o Ser, órgãos dos sentidos, intelecto, objetos dos sentidos e ações passadas.”

“O contato com os órgãos dos sentidos e esses com a mente, ambos dão origem a sensações prazerosas ou dolorosas.”

“O local das sensações é a mente.”

Nesses três sutras, Charak descreve toda estrutura vital do indivíduo: O Ser (ou a consciência que anima o corpo, também chamado de Purusha) e sua expressão que acontece no corpo físico (a Prakriti ou matéria) devido a interação com o meio ambiente e sua influência direta.

“Todas as sensações cessam sua existência no estado de yoga (união com o Ser) e Moksha.”

Em yoga, que significa união da percepção com o valor transcendental da vida, assim como é mencionado no Yoga Sutra: Yoga Citta Vritti Nirodah (yoga é o cessar dos impulsos da mente) todas as sensações deixam de existir e o Ser é percebido (Tada Drastuh Svarupe Awasthanam – então sua verdadeira forma é conhecida).

“Sua verdadeira forma é conhecida” se refere ao seu nível transcendental que está além da mente, sentidos e intelecto. Por isso, a experiência de Yoga não é uma experiência intelectual e sim uma experiência que transcende todo o campo relativo e material da vida. O conhecedor se desfaz em yoga, de fato não há conhecedor, processo de conhecimento ou objeto conhecido em yoga.

“Em moksha, o cessar é completo, e o yoga leva a isso.”

Com a prática constante do YOGA, o indivíduo atinge Moksha, a libertação final do sofrimento, onde não há mais nenhuma identificação com a causa raiz do sofrimento, a matéria.

Moksha é possível pela ausência de rajas e tamas, destruição das ações passadas e desapego de todas as suas fontes.”

Isso significa que somente um indivíduo com uma mente clara, serena, não escravizada pelas influências de Rajas e Tamas, não mais influenciado pelos efeitos de suas ações passadas e desapegado daquilo que gera sofrimento, todas são sentenças claras de um Yogi que se realizou na senda do YOGA e está completamente unido com o SER, como é descrito abaixo.

“Esse é um estado livre de renascimento.”

“Toda a causa da miséria deriva daquilo que é não-eterno.”

“Isso (o sofrimento) não está ligado ao Ser, mas sim à concepção errônea daquilo que eu sou, até que o verdadeiro conhecimento emerja.”

Até que o indivíduo realize o SER, ele continua a viver o ciclo de SAMSARA (morte e renascimento) impelido pelo desejo do desfrute constante da matéria.

“Através da experiência direta de que ‘eu não sou esse corpo, esse corpo não é meu’, o conhecedor da verdade transcende tudo.”

“Através da experiência direta”, significa que ele avivou o SER em sua prática constante e isso agora é percebido onde quer que ele esteja ou seja, ele realizou o Ser, não no nível do intelecto, mas no nível da experiência direta.

“Nesse estado de renúncia final, todas as sensações e suas causas junto a consciência, conhecimento e entendimento cessam completamente.”

“Daqui em diante o ser pessoal e todos seus atributos, devido à identificação como sendo Brahman não é percebido.”

“Aqui existe somente o Âmbito para os conhecedores de Brahman.”

“O ignorante é incapaz de compreender tal experiência.”

Os últimos sutras deixam claro o estado de realização do Yogi como sendo um estado liberto do sofrimento e de suas fontes, onde a renúncia ao mundo material é verdadeira, um estado de consciência. Assim como os upanishads citam Aham Bramasmi (Eu Sou Brahma, a inteligência criadora), Charak deixa claro que era também um mestre realizado e conhecedor de Brahman a realidade última da vida.

Mario JP Neto – É instrutor e praticante de meditação transcendental, terapeuta e professor de Ayurveda. Atende em Brasília – DF

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